domingo, 21 de maio de 2017

ALGUNS FATOS E FOLCLORE SOBRE O TRABALHO GERENCIAL (I)

Esta postagem reúne excertos extraídos de ‘The Manager's Job: Folklore and Fact”, publicado no Harvard Business Review julho-agosto de 1975) sobre as características da função, com o arcabouço do contexto da função que foi publicado como “Rounding Out the Manager's Job” no Sloan Management Review (outono americano de 1994).

Folclore I: o gerente é um planejador sistemático e ponderado. As provas nesta questão são arrasadoras, mas não há um fragmento sequer que dê sustentação a esta afirmação.

Fato: estudo após estudo tem mostrado que os gerentes trabalham em um ritmo inflexível, que suas atividades são caracterizadas por brevidade, variedade e descontinuidade e que são fortemente orientados para ação e que não gostam de ponderação.

Considere a seguinte prova:

Metade das atividades em que se engajaram, cinco executivos principais [americanos, que estudei em minha pesquisa (Mintzberg, 1973 a)] durou menos de nove minutos e apenas 10% dessas atividades ultrapassaram uma hora. Um estudo de 56 contramestres americanos revelou que esses homens realizaram uma média de 583 atividades por 8 horas de turno, uma média de 1 a cada 48 segundos. (Guest, 1956:478). O ritmo de trabalho, tanto para os executivos como para os contramestres, era exaustivo. Os executivos principais enfrentavam um fluxo contínuo de visitantes e de correspondência do momento em que chegavam pela manhã até o final do expediente. Os intervalos para café e almoço estavam inevitavelmente relacionados a trabalho, e os onipresentes subordinados pareciam usurpar todos os momentos disponíveis. Um estudo diário de 160 gerentes britânicos da alta administração e de nível médio revelou que esses indivíduos trabalhavam meia-hora ou uma hora a mais, sem interrupção, somente a cada dois dias, aproximadamente (Stewart, 1967).

Dos contatos verbais com os executivos principais em meu estudo, 93% foram agendados em uma base ad hoc. Somente 1% do tempo dos executivos foi gasto com assuntos abertos de observação. Apenas 1 entre 368 contatos verbais não estava relacionado a uma questão específica, podendo ser chamado de planejamento geral. Outro pesquisador descobriu que “em nenhum caso isolado o gerente relatou a obtenção de informações externas importante oriundas de conversas generalizadas ou de outra comunicação pessoal não relacionada” (Aguilar, 1967:102). Nenhum estudo encontrou padrões importantes na maneira pela qual os gerentes programavam seu tempo. Eles pareciam pular de questão em questão, reagindo continuamente às necessidades do momento.

É esse o planejador que o ponto de vista clássico descreve? É claro que não. Como, então, podemos explicar esse comportamento? O gerente está simplesmente reagindo as pressões do cargo. Descobri que meus executivos principais terminavam muitas de suas atividades, frequentemente abandonando as reuniões antes do fim e interrompendo seu trabalho de rotina para convocar seus subordinados. Um dos presidentes não apenas posicionava sua mesa para que pudesse observar o que ocorria nos corredores, como deixava sua porta aberta quando só - um convite para que os subordinados entrassem em sua sala para interrompê-lo. Está claro que esses gerentes desejavam estimular o fluxo de informações correntes. Porém, de maneira mais significativa, pareciam estar condicionados ao seu próprio volume de trabalho. Davam valor ao custo de seu tempo e estavam sempre cientes de suas obrigações sempre presentes - correspondência a ser respondida, atendimento às pessoas que os procuravam e assim por diante. Parece que, não importa o que esteja fazendo, o gerente é atormentado pelas possibilidades do que deve ou precisa fazer. Quando o gerente precisa planejar, parece fazê-lo implicitamente no contexto de suas atividades diárias e não através de um processo abstrato reservado para duas semanas de retiro em uma estância nas montanhas. Os planos dos executivos principais que estudei parecem existir apenas em suas cabeças como intenções flexíveis e, muitas vezes, específicas. Não obstante a literatura tradicional, a tarefa de administrar não gera planejadores ponderados; o gerente reage aos estímulos em tempo real um indivíduo condicionado pelo seu cargo irá preferir ação imediata à retardada.